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Toda a poesia de António Botto, publicada entre 1921 e 1959, incluindo os versos políticos, foi publicada num volume intitulado “Poesia”, numa edição do escritor Eduardo Pitta, que assina a introdução. O livro, com a chancela da Assírio & Alvim, inclui as célebres “Canções”, um conjunto de quinze livros, a publicação póstuma “Ainda Não se Escreveu” e uma sequência de poemas em prosa, intitulada “Cartas Que Me Foram Devolvidas”.

Eduardo Pitta dirigiu a edição completa da obra de Botto, em 2008, na coleção "Biblioteca Amor e Ódio" na antiga Quasi, editora que, entretanto, saiu do mercado livreiro. Relativamente a essa edição, que marcou o centenário da morte de Botto, a nova, “Poesia”, que é publicada na quinta-feira, colige 22 livros, num volume único de 816 páginas.

“A grande revelação será o livro póstumo, ‘Ainda não Se Escreveu’ (1959), publicado dois meses após a morte do autor, sistematicamente ignorado pela crítica portuguesa, e que são versos políticos”, disse Eduardo Pitta à agência Lusa.

Os 22 livros de "Poesia" congregam os 15 das “Canções” - “Adolescente”, ”Curiosidades Estéticas”, “Piquenas Esculturas”, "Olimpíadas”, ”Dandismo”, “Ciúme”, "Baionetas da Morte”, ”Piquenas Canções de Cabaret”, ”Intervalo”, ”Aves de Um Parque Real”, ”Poema de Cinza”, "Tristes Cantigas de Amor”, ”A Vida Que Te Dei”, ”Sonetos” e ”Toda a Vida” -, e ainda “Motivos de Beleza”, ”Cartas Que Me Foram Devolvidas”, ”Cantares”, ”O Livro do Povo”, ”Ódio e Amor”, ”Ainda não Se Escreveu” e ”Fátima”. Em apêndice, surgem os poemas escritos para o filme “Gado Bravo” (1935), de António Lopes Ribeiro.

Três dos livros integrados em “Poesia” têm “notas editoriais específicas, designadamente, ‘Ódio e Amor’, que tem poemas recuperados, com novos títulos, de um livro anterior, ‘Ainda não Se Escreveu’ e ‘Fátima’, uma curiosidade religiosa”, disse o editor da obra à Lusa.

A cronologia foi muito aumentada, realçou Eduardo Pitta, referindo que a edição de 2008 há muito se encontrava esgotada, “até nos alfarrabistas”.

António Botto (1897-1959), escreve Eduardo Pitta na introdução, foi “segregado pela sociedade respeitável dos anos 1920”, uma situação que perdurou até à sua morte, por atropelamento, no Rio de Janeiro. Em causa estava, em particular, a homossexualidade do escritor, e um comportamento que não seguia a “compostura e aprumo” exigidos pelos padrões da época, e que permaneceram ao longo da ditadura.

“O quadro mental da sociedade portuguesa manteve-se, apesar das sucessivas mudanças de regime: fim da monarquia, implantação da República, ditadura militar, ditadura civil, Estado Novo. Nessa medida, não surpreende que, a 09 de novembro de 1942, ao fim de dezoito anos de serviço ao Estado, Botto tenha sido expulso da função pública por... ‘não manter na repartição a devida compostura e aprumo, dirigindo galanteios e frases de sentido equívoco a um seu colega, denunciando tendências condenadas pela moral social’. A inobservância dos deveres profissionais incluía fazer versos e recitá-los durante as horas de serviço, conforme despacho de exoneração publicado do Diário do Governo”, escreve Pitta.

António Botto, natural de Casal da Concavada, no concelho de Abrantes, foi “criado em Alfama [bairro lisboeta], sem educação formal, nómada dos bairros populares, homossexual notório, aspirante a ator, ajudante de livraria, modesto funcionário público entre 1924 e 1942 (o primeiro ano em Angola), mitómano, tudo o afastou do padrão de respeitabilidade do seu tempo”.

“Não obstante, impôs-se ao ‘milieu’ literário”, sentencia Pitta, referindo que a sua poesia despertou o interesse de literatos como José Régio (1901-1969), que, em 1925, fez numa dissertação de licenciatura em filologia românica, apresentada na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, “uma apreciação laudatória” a Botto, na qual afirmou: “António Botto é um clássico — no mais amplo sentido da palavra”. “Mas há na sua Arte esquisitices de ritmo, subtilezas de ironia, recantos de intenção e sínteses de expressão — que fazem do Poeta o mais aristocrata, o mais pessoal intérprete de certos aspetos da sensibilidade Contemporânea”. O autor de “Toada de Portalegre” voltou a escrever sobre Botto, “sendo o mais famoso o que dá pelo título de ‘António Botto e o Amor’”.

Aliás, sete anos após a morte do poeta, Régio marcou a diferença, ao assistir à cerimónia de depósito dos restos mortais de Botto no cemitério do Alto de São João, em Lisboa, um “ato público que culminou um longo processo de contornos nunca devidamente esclarecidos, e teve repercussão na imprensa da época”. Nessa cerimónia, além de Régio, vindo expressamente de Vila do Conde, só estiveram presentes Ferreira de Castro, Natália Correia e David Mourão-Ferreira. “Nenhum outro grande nome marcou presença”, enfatiza Eduardo Pitta.

Já em 1942, quando a editora Ática publicou “Ainda não se Escreveu”, “grande parte da ‘intelligentsia’ [portuguesa] assobiou para o lado”.

Botto foi um poeta maldito e marginalizado, defende Pitta no seu texto introdutório, que o identifica como precursor da poesia de discurso homoerótico e da introdução da quadra popular nesse discurso.

O escritor, poeta e ensaísta, editor da poesia completa de Botto, deixa ainda uma questão no ar: “Intuitivo por natureza, não sabemos se Botto alguma vez leu Walt Whitman, que logo em 1860 escrevera em ‘Cálamo’ — o terceiro livro de ‘Leaves of Grass’ — os versos fundadores daquilo a que hoje chamamos homotextualidade”.

Walt Whitman (1818-1892) teve “Leaves of Grass”/ “Folhas de Erva” integralmente traduzida para português por Maria de Lourdes Guimarães, em 2002, na Relógio d'Água, e por José Agostinho Baptista, em 2003, numa antologia publicada pela Assírio & Alvim, para a qual o poeta de “Canções Da Terra Distante” também já traduzira “Cálamo”, em 1984, e “Canto de Mim Mesmo”, em 1992.

O poeta norte-americano, a quem Álvaro de Campos/Fernando Pessoa dedicou a “Saudação a Walt Whitman”, em 1915, teve, no entanto, outras traduções portuguesas, anteriores e parcelares, nomeadamente “Canção da Estrada Larga”, por Luís Cardim, na Seara Nova, em 1947, e uma versão de “Folhas de Erva”, feita por Agostinho da Silva, datada de 1943. Whitman estava igualmente disponível em Portugal desde pelo menos os anos dez do século passado, através de edições inglesas (Dent & Sons, The Nonesuch Press, entre outras) e francesas (como Mercure de France e Gallimard), de acordo com registos da época. No Brasil, cuja independência o poeta de “Folhas de Erva” celebrou em “A Christmas Greeting”, a tradução de Whitman remonta aos anos de 1940.

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