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MTNoronha_caixa (4).jpgA integral das gravações de Maria Teresa de Noronha (1918-1993) é editada em setembro, celebrando o centenário do seu nascimento, e incluirá mais de 50 registos inéditos, segundo Frederico Santiago, coordenador do projeto.

Entre as gravações inéditas encontram-se dois fados gravados no seu primeiro programa na ex-Emissora Nacional, em julho de 1939.

Em declarações à agência Lusa, Frederico Santiago disse que a edição é “uma caixa de seis CD com a integral das gravações de estúdio de Maria Teresa de Noronha, complementada pelas gravações inéditas de programas na rádio".

Estas incluem "a gravação de dois fados do primeiro programa na [antiga] Emissora Nacional, em 1939, que se encontrava na posse da família, alguns fados gravados em programas da década seguinte, e 46 fados gravados por Nuno Siqueira [um estudioso e colecionador fadista], entre 1960 e 1961, a partir da emissão desses programas”.

A edição inclui, entre o material inédito, os testes que a criadora do "Fado das Horas" fez para entrar na discográfica Valentim de Carvalho, provavelmente em 1958, pois começou a gravar em 1959 para a discográfica.

Outro destaque é sido possível reunir todos os discos de 78 rotações por minuto (78rpm), que a fadista gravou para a etiqueta Rouxinol, num total de 14 fados.

“Muitos dos fados que gravou na etiqueta Rouxinol, não voltaria a gravar”, realçou Frederico Santiago.

O restauro destas gravações foi feito por Pedro Félix, da Universidade Nova de Lisboa, responsável, entre outros, pelo CD “Canções de Ida e Volta”, editado pelo Museu do Fado, que reúne gravações de 1911 a 1956, de nomes como Ester de Abreu, Maria da Graça, Isaura Garcia, Olivinha de Carvalho, Joel Lemos e Pedro Vargas.

Dos inéditos de Maria Teresa de Noronha, o investigador referiu ainda dois de estúdio gravados nas sessões para o LP “Saudade das Saudades”, e que não foram incluídos nesse álbum. Entre eles, está um fado de Coimbra - Maria Teresa de Noronha terá sido a primeira mulher a cantar este género musical, exclusivamente masculino, pelo facto de estar ligado à Universidade, onde predominavam os estudantes.

Maria Teresa de Noronha gravou exclusivamente, à exceção de “Rosa Enjeitada” e de um outro fado, fados estróficos, isto é, fados sem estribilho, disse Frederico Santiago, referindo a sua grande ligação artística ao marido, José António Sabrosa, guitarrista, e “um grande compositor de fados”, autor, entre outros, do "Fado da Defesa" e "Pintadinho".

Maria Teresa de Noronha é quase uma enciclopédia de fado tradicional, e uma lição de bom gosto a estilar [forma de variar dentro da mesma linha melódica]. Conseguiu impor um estilo original e, ao mesmo tempo, tornar-se num bastião de tradição no fado. É, muito injustamente, um bocadinho ignorada pelas novas gerações”, disse.

Frederico Santiago realçou o facto de Maria Teresa de Noronha “não fazer propriamente carreira, cantava quase apenas quando lhe apetecia". "Felizmente apetecia-lhe quase sempre, o que permitiu o contrato na Emissora Nacional, com um programa quinzenal entre 1939 e 1962, interrompido apenas brevemente quando se casou, em dezembro de 1947, e [com] o contrato de exclusividade com a editora Valentim de Carvalho, a partir de 1959. Foram essas duas facetas, os programas na rádio e os discos para a Valentim de Carvalho, que a transformaram numa vedeta nacional, mesmo sem ter carreira nas casas de fado ou no palco".

O investigador justificou essa postura e reserva “pela condição social de Maria Teresa Noronha”, neta dos condes de Paraty, e casada com o conde de Sabrosa, "o que não lhe permitia assumir-se como vedeta que era”.

“Acho que foi essa também uma das tragédias da sua vida, e que tanto se reflete na tristeza contida que tinha no seu cantar", acrescentou.

A fadista estreou-se aos microfones da Emissora Nacional, em 1938, na festa de despedida do locutor Fernando Pessa (1902-2002), na BBC Radio, em Londres, e, apesar dos “poucos espetáculos que fez”, chegou a atuar em Espanha, Inglaterra, Bélgica, Mónaco e no Brasil.

Maria Teresa de Noronha que celebrizou, entre outros, o “Fado do Castanheiro”, “Minha Sina”, “Fado das Horas”, “No Amor não há Segredos”, “Fado da Verdade”, “Saudade das Saudades”, “Pinóia”, “Tipóia”, “Fado de Outrora”, “Fado Dois Estilos” e “Minha Guitarra”, anunciou que, com o fim do programa na Emissora Nacional, em 1962, punha fim à sua carreira.

A edição inclui um texto do musicólogo Rui Vieira Nery, que era seu afilhado, outro de Nuno Siqueira, atual presidente da Academia da Guitarra Portuguesa e do Fado, sobre os programas na Emissora, e uma cronologia com as principais datas da sua carreira.

Muitos dos programas gravados por Nuno Siqueira foram datados a partir das agendas da fadista, “onde apontava quase tudo”, disse Frederico Santiago, que levou cerca de um ano a preparar esta edição.

Maria Teresa de Noronha também atuou na televisão, em Portugal, desde as primeiras emissões, tendo sido a convidada especial no Festival RTP da Canção de 1969, o primeiro transmitido em direto a partir de uma sala de espetáculos, o Teatro Municipal S. Luiz, em Lisboa. O seu último álbum, “Fado Antigo”, seria gravado em 1971.

O coordenador da edição discográfica, Frederico Santiago, é responsável pela edição integral de Amália Rodrigues, que está a ser publicada desde 2014, e que tem trazido a lume edições históricas como o CD “Tivoli 62”, o registo inédito de parte da homenagem ao fadista e gerente artístico Filipe Pinto (1905-1968), na qual atuaram Alfredo Marceneiro, Lucília do Carmo e Amália, entre outros.

 

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