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Centro de Documentação

por FMSimoes, em 11.09.13

MADALENA IGLÉSIAS

Uma cantora à frente do seu tempo

 

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Madalena Iglésias afirmou em 2008 à agência Lusa que esteve à frente do seu tempo e que, por ser bonita, teve de trabalhar que "nem um animal".

"O 'muito bonita' perseguiu-me toda a vida, criou-me o complexo de que fosse só isso. E, como tal, trabalhei que nem um animal, tentei superar-me, estudei, aprendi idiomas, fiz exames no Conservatório, para melhorar o meu trabalho e a mim própria como pessoa", disse a cançonetista.

Vencedora do Festival RTP da Canção em 1966, com "Ele e ela" (Carlos Canelhas), Madalena Iglésias disse à Lusa que, na altura, "estava à frente dez anos" do seu tempo, "pelas orquestrações, pelo guarda-roupa e pela forma de estar em palco".

"O que fazia era inovador para o nosso país. Eu sentia-me, e sentiram-me, sempre adiantada ao meu tempo", frisou.

O ano de 1964 foi determinante para a cantora: venceu o Festival Hispano-Português de Aranda del Duero, em Espanha, estreou-se no cinema, ao lado de António Calvário, no filme "Uma Hora de Amor", de Augusto Fraga, e voltaria ao grande ecrã em "Canção da Saudade", de Henrique Campos.

Em 1966, novamente ao lado de Calvário, protagonizou "Sarilho de Fraldas" (1967), de Constantino Esteves.

Madalena Lucília Iglésias do Vale, nascida na freguesia lisboeta de Santa Catarina, começou, incentivada pelo pai, o empresário José Rodrigues do Vale, a cantar no Coro da Orquestra Popular, em 1954. Dois anos depois, ingressou no Centro de Preparação de Artistas da então Emissora de Nacional (EN).

Como profissional estreou-se em 1957, na EN, e em agosto do ano seguinte, atuou no popular programa “Serões para Trabalhadores”, em Almada, acompanhada pela Orquestra Ligeira da EN, dirigida pelo maestro Fernando de Carvalho.

Neste mesmo ano gravou o seu primeiro disco, um EP, que incluía as canções “Talvez”, “Sim ou Não”, “Sou Tua” e “De Degrau em Degrau”.

Segundo a autora da fotobiografia da cantora, Maria de Lourdes de Carvalho, logo nos finais da década de 1950, Madalena Iglésias era “considerada uma das grandes revelações da música portuguesa”.

Em 1959, fez a estreia como compositora, sendo autora da música para um poema de Jerónimo de Bragança, “O Futuro o Dirá”, que levou aos ecrãs da RTP.

A partir de então, passou a ser uma “presença constante” nas rádios, na televisão e em espetáculos em todo o país.

O seu primeiro contrato internacional foi assinado em 1959, e levou-a a atuar na televisão espanhola, RTVE, e na rádio La Voz de Madrid, tendo sido uma das suas madrinhas Paquita Rico (1929-2017).

Segundo Maria de Lourdes de Carvalho, foi “o início do prestígio” que veio a alcançar junto público espanhol e, mais tarde, sul-americano, destacando-se a Venezuela, onde atuou sucessivamente entre 1961 e 1972.

Recebeu um Guaicaipuro de Ouro e foi condecorada pelo Governo de Caracas, como deu conta a imprensa da época.

Sobre a relação com a Venezuela, da qual afirmou guardar “as melhores recordações”, referiu que, num dos contratos que teve com uma emissora de rádio e televisão, fez “40 espetáculos em 15 dias".

À Lusa, a cantora realçou a sua carreia internacional, tendo sido distinguida, em 1966, em Palma de Maiorca com o Prémio Hispanidade pela canção "Vuelo 502".

"Tinha o complexo da beleza e quis demonstrar que não era só pela beleza que tinha uma carreira internacional extraordinária", sublinhou.

Madalena Iglésias deixou os palcos portugueses em 1970, mas "a sua agenda internacional era muito maior e ainda continuou, depois de se casar, devido aos compromissos", referiu a sua biógrafa, segundo a qual, Madalena Iglésias nunca disse “adeus aos palcos”.

Reconheceu que “depois do casamento", porém, "a carreira nunca mais foi regular”, embora tenha permanecido sempre na memória do público nacional e estrangeiro.

"Ainda me lembro de cantar grávida de oito meses da minha filha, na televisão da Venezuela, e pedir para não me focarem aquele barrigão", recordou Iglésias.

Segundo a cantora, deixou de cantar "por volta de 1974/1975, após o nascimento dos dois filhos".

Os portugueses voltaram a vê-la em 1979, num programa exclusivo na RTP, "Três dias em Lisboa", mas, apesar "dos inúmeros convites", Madalena Iglésias não voltou a cantar.

Ainda antes de se casar, em 1972, já se sentia "cansada de tantas viagens, sustos", de "nunca estar com a família, faltar a aniversários, Natais e fins de ano", disse à Lusa.

"A minha vida era quartos de hotel, salas de ensaio, teatros, avião, muitos sustos e estava cansada", descreveu.

Além dos "sustos" e do “carinho do público, tanto português como estrangeiro”, Madalena Iglésias recordou desses tempos "os quilos de pautas" que levava consigo.

Madalena Iglésias regressou pontualmente aos palcos portugueses, nomeadamente em 2008 e 1991, tendo partilhado então o palco com Simone de Oliveira, numa interpretação de "Ele e Ela".

 

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A cançonetista Madalena Iglésias faleceu no dia 16 de janeiro fr 2018, em Barcelona, aos 78 anos, foi distinguida com dezenas de prémios, distinções e homenagens ao longo da carreira.

A sua biógrafa, Maria de Lourdes de Carvalho, em declarações à agência Lusa, afirmou que a intérprete de “Ele e Ela” protagonizou “umas das mais interessantes carreiras da música portuguesa, que se afirmou não só cá, como internacionalmente, apesar das suas atuações além-fronteiras serem pouco conhecidas dos portugueses”.

Em 2014, a intérprete foi homenageada no Casino da Figueira, na Figueira da Foz, que considerou que “Madalena Iglésias foi das mais fulgurantes cantoras portuguesas”, senhora de “uma carreia ímpar na música portuguesa, que ultrapassou fronteiras”.

No espetáculo participou António Calvário, com quem Madalena Iglésias partilhou palcos, gravou duetos e se estreou no cinema, em 1964. Ao palco figueirense subiram também Lenita Gentil, Gonçalo Salgueiro e Maria Amélia Canossa, todos acompanhados pela Orquestra Santos Rosa, sob a direção do maestro Pedro Santos Rosa.

A mais recente distinção que a cantora recebeu foi a Medalha Pro-Autor, da Sociedade Portuguesa de Autores, em maio de 2013.

No ano anterior, a Câmara de Lisboa inaugurou um busto seu, de autoria do escultor Domingos Oliveira, no Jardim da Alameda Padre Álvaro Proença, na freguesia de Benfica.

Ao longo da carreira, Madalena Iglésias foi eleita por seis vezes "Rainha da Radiotelevisão Portuguesa", em 1960, 1962, 1963, 1964, 1965 e 1966.

Em 1990, recebeu o Prémio Prestígio, “Símbolo de uma Época”, da Casa da Imprensa, em Lisboa, e, em 1968, fora distinguida com o Diploma da Imprensa Internacional, no Rio de Janeiro.

Ainda na década de 1960, que correspondeu ao período de auge da sua carreia, ficou em segundo lugar nas Olimpíadas da Canção, em Atenas. Foi no ano de 1967, ano em que também recebeu a Medalha da Cidade de Luanda.

Em 1966, além da vitória no Festival RTP da Canção, com “Ele e Ela”, de Mário Canelhas, venceu o Festival do Atlântico, em Palma de Maiorca, em Espanha, e foi distinguida com o Óscar da Imprensa.

Em 1965, recebeu o Prémio de Cinema, da revista Plateia, e o Grande Prémio do Disco, da Rádio Renascença, pela canção “Sonha”.

Em 1964, foi eleita "Rainha da Rádio" e recebeu o Prémio de Interpretação no Festival de Aranda del Duero, em Espanha, onde ficou em segundo lugar.

Na Venezuela, em 1963, recebeu o Guaicaipuro de Ouro e o Bolívar de Ouro, pela segunda vez, depois de distinguida em 1961.

Ainda em 1963, recebeu o Troféu Carajá, da Televisão Marajoará, do Estado brasileiro do Pará, e a Rosa de Ouro para a Melhor Cançonetista da televisão brasileira, alám do Prémio Laranja, do jornal Diário Popular, em Portugal.

Em Portugal, em 1962, foi eleita "Princesa da Rádio", recebeu o Elefante de Ouro, do Rádio Clube Português, e o diploma de Honra da Casa da Imprensa.

Em 1961, foi eleita "Rainha da Rádio", de Goa, e recebeu o Óscar do Disco, em Portugal.

Em 1960, foi pela primeira vez eleita "Rainha da Rádio", em Portugal.

O último Festival RTP Canção a que concorreu foi em 1969, com "Canção para um poeta", tendo terminado em 6.º lugar.

Na ocasião, Madalena Iglésias antecipou à imprensa que estava confiante na vitória e tinha já preparado as versões internacionais da canção que considerava avançada para a época.

“Uma canção um pouco complicada, mas creio que, daqui a uns anos, o nosso público a possa compreender melhor”, disse Madalena aos jornalistas, e prosseguiu: “As minhas preocupações foram para a orquestração e um nível de interpretação a plano internacional, desprezando um tanto, o nosso atual nível”.

“Ele e Ela”, “Balada das palavras perdidas", "Na tua carta", "Poema de nós dois", "Eu vou cantando", "Não sou de ninguém", "Maus caminhos", "Setembro", "Romance da Solidão", "Onde Estás felicidade", "Poema da vida", "Tu vais voltar", "Amar é vencer", "Tu és quem és" e “Silêncio entre nós”, foram alguns dos seus êxitos.

No texto de abertura da sua fotobiografia, “Meu nome é Madalena Iglésias” (2008), de Maria de Lourdes de Carvalho, Madalena Iglésias referiu-se à sua carreira como “um caminho percorrido com entusiasmo, alegria, êxitos e algumas nuvens”, e garantia: “Tenho um pouco do que vibrei!”.

“Ao escolher a minha profissão/vocação, procurei cumpri-la sempre com rigor e muita dignidade”, afirmou.

Madalena Iglésias é “um dos nomes mais destacados da história da música ligeira portuguesa”, declarou a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), em comunicado.

A SPA referiu que homenageou a intérprete de “Ele e Ela”, em 2013, com a Medalha Pro-Autor, e que a convidou, em 2016, para entregar os prémios de SPA de Televisão, na sua gala anual, que se realizou em Lisboa.

“A sua presença recebeu uma ovação do público. Era uma grande amiga da cooperativa, que nos últimos anos fez sempre questão de apoiar, tendo oferecido à instituição as partituras com as mais importantes obras que interpretou na sua carreira”, refere a SPA, acrescentando que, “embora fosse essencialmente intérprete, Madalena Iglésias sempre afirmou a profunda ligação que teve aos autores, nomeadamente os que escreveram para ela”.

Madalena Iglésias era associada da cooperativa de autores desde 02 de julho de 1959.

A SPA referiu a participação “com êxito” nos festivais de Benidorm, de Aranda del Duero, do Mediterrâneo, em Espanha, e no do Rio de Janeiro.

A cooperativa escreveu que, depois do seu casamento, em 1972, “partiu para a Venezuela” e “ainda interveio esporadicamente em programas da televisão” desse país.

A cantora viva desde 1987 em Barcelona, onde morreu, e visitava regularmente Lisboa, onde, em 1990, recebeu o Prémio Prestígio na Grande Noite do Fado, no âmbito das comemorações do centenário do Coliseu dos Recreios de Lisboa.

Em 1994, a editora Movieplay Portuguesa, numa seleção do produtor Mário Martins, editou uma compilação dos mais conhecidos temas do seu repertório.

 

MARIA DA FÉ

"Cantarei até que a voz me doa"

 

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“Na vida tudo me aconteceu. Estava predestinado. A minha voz tem sempre a característica de fado. É uma maneira de ser, nasce com a gente”, assim se definiu numa entrevista Maria da Fé, que deu voz a êxitos como “Valeu a pena” (Mário Moniz Pereira) ou “Fado Errado” (Mário José Lopes/Frederico de Brito), entre muitos outros como “Lua de Maio” (Jorge Fernando), “Pode ser mentira” (Frederico de Brito), “Meu país” (Luís Alcaria/Fontes Rocha) ou “Cantarei até que a voz me doa” (José Luís Gordo/José Fontes Rocha).

Com uma carreira com mais de 50 anos, Maria da Conceição Costa, de seu nome de batismo, começou a cantar porque a mãe gostava. Em várias entrevistas desabafou: “Cantava quando os outros meninos ainda
brincavam”.
Aos nove anos já cantava num clube recreativo da Sé, na Invicta; aos 13 participou num concurso do Jornal de Notícias, não ganhou pois era menor, vencerá três anos depois, realizando digressões pelo Norte do país ao lado, entre outros, Amália Rodrigues.

Inicia carreira na Adega Mesquita, “a ganhar 150 escudos por noite”, integrando depois o elenco de Parreirinha de Alfama, de Argentina Santos. A fadista esteve noutras casas de fado, e na década de 1970 abriu no bairro de Alfama, O PoetaAtualmente canta na sua casa de fados, Senhor Vinho, na Madragoa, que é uma referência no itinerário fadista alfacinha.

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Maria da Fé pisou os mais diversos palcos internacionais como Queen Elisabeth II Hall, em londres, Canecão, mo Rio de Janeiro, ou o Institute du Monde Arabe, em Paris, além de diversos festivais internacionais de “world music” como o de Brugges ou de Tunes.

Em finais da década de 1960 ensaiou um modelo musical de fusão a convite de José Duarte, que foi qualificado como “pop fado”, introduzindo, nomeadamente, uma bateria.

Ao longo da sua carreira Maria da Fé não vacila mantendo-se sempre fiel ao fado tradicional, defendendo que “são as casas de fado as verdadeiras escolas” e pugnando pela sua dignificação. “Sempre me preocupei onde cantava e como”, afirma várias vezes em entrevistas.

Sobre si, contundente, David Mourão-Ferreira escreveu: Maria da Fé é fado.

A fadista foi várias vezes distinguida, designadamente, com o Prémio Imprensa, Prémio Amália Rodrigues para a Melhor Intérprete, e a Medalha de Mérito Cultural do Ministério da Cultura.

Fotos: DR/ Texto: NCL

 

FERNANDO FARINHA

O “miúdo da Bica” que foi a “voz mais portuguesa” e rei da rádio

 

 

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Fernando Farinha, o “miúdo da Bica”, nasceu no Barreiro, mas para o fado, foi na Bica, em Lisboa, onde se estabeceu o seu pai como barbeiro. Quando Fernando Farinha veio viver para a Bica teria seis anos, fiando-nos num cruzamento de fontes, e colocando totalmente de parte o famoso fado “Eu, ontem e hoje”, no qual Fernando Farinha se propõe contar a sua “história realista”, apontando o ano de 1929 como o do seu nascimento, o que está incorreto. Fernando Farinha terá nascido a 20 de dezembro, mas de 1928, foi todavia registado em 1929, mas em termos de datas há alguma confusão do próprio Farinha. Por outro lado, no mesmo fado, Farinha afirma que é o quinto filho do casal, o que facto não corresponde à verdade.

A história realista de Fernando Farinha escreveu-se de facto com a autenticidade da sua interpretação,  nas inspiradas melodias que compôe, nos versos que gostava de escrever e que interpretou, e deu a outros colegas como Amália Rodrigues, Maria Teresa de Noronha ou Fernanda Maria, para os cantar, e, menos conhecido do público, nas suas caricaturas.

A lista dos seus êxitos é longa, e citamos alguns: “A minha apresentação”, “Belos tempos", "Amor de mãe", "Deus queira", "É pá do Fado", “Aninhas”, “Cinco bairros”, “Guitarra triste”,“Fado das trincheiras”, “Menina do rés-do-chão”, “Guitarras de Lisboa”, “Eterna aamizade”, “Ti'Ana da fava rica”, “Vida da minha vida”, “Um copo mais um copo”, “A rir e a brincar” e “Eu quis demais”. Na Estoril Discos, de Manuel Simões, estão contabilizados sete temas.

Fernando entrou para a primária aos sete anos e, segundo fontes por nós consultadas, terá contactado com Padre Francisco da Cruz (1859-1948), conhecido pela sua bondade, e que veio a ser grande amigo do Fernando, e terá contribuído para a sua formação. Por esta altura, em 1935 foi mascote da marcha popular da Bica.

 

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 Algumas das caricaturas por Fernando Farinha expostas em junho de 2016

no Espsço Santa Catarina/Palácio Cabral, em Lisboa. 

Entre as suas brincadeiras de criança, ainda sobrava tempo para o seu passatempo preferido: o Fado. Os seus primeiros admiradores foram os companheiros de escola e os moradores da Bica, onde existia um clube, o Marítimo Lisboa Clube, do qual era presidente Manuel Sá Esteves, negociante de peixe e poeta popular, conhecido por “Manuel Calmeirão” devido à sua grande estatura. Aí no clube, Fernando cantarolava de vez em quando.

Manuel Calmeirão teve conhecimento de um concurso de fado entre bairros, na Verbena de Santa Catarina, ou “dos Paulistas”, junto a igreja, da qual era proprietário o grande empresário do espetáculo José Miguel (1908-1972). Nessa época havia muitos concursos entre os bairros, e um deles era dedicado aos miúdos, e Manuel Calmeirão lembrou-se de Fernando Farinha, que apanhado de surpresa, ficou contente, mas havia um problema, o pai, o senhor André que não parecia nada satisfeito com essa ideia, e embora contrariado, lá deu a autorização. Foi um sucesso, o público não o deixava abandonar o estrado, tendo ficado em 1.º lugar.

O vencedor foi o “Miúdo da Bica”, epíteto que nunca mais o largaria, nem imaginaria na altura, que era o primeiro passo para uma grande carreira profissional.

José Miguel reparou logo nas suas capacidades e tentou fazer um contrato que o pai, que não autorizou, pois a carreira artística colocaria em risco o seu grande sonho da continuação do negócio pelo filho, e só o autorizava a cantar de vez em quando numa ou noutra verbena, espaços ao ar livre de espetáculo, muito populares na época.

Quando tinha 11 anos, Fernando Farinha ficou órfão, com tudo o que acarretava, na época, designadamente, a perda de quem garantia o sustento da família, que ficava sem recursos. Viveram momentos duros, e Fernando ficou na posição difícil do “homem da casa”, a quem coube algumas responsabilidades porque as irmãs, mais velhas, e a mãe, não podiam manter esse encargo.

Corria o ano de 1940, e foi convidado a gravar o primeiro disco da carreira, cujo alinhamento é constituído por “Meu destino”, “Tem juízo rapaz”, “Descrença” e “Sempre linda”.

O primeiro contrato de Fernando Farinha foi com a pessoa que tinha sido  seu admirador desde a primeira hora, e foi também o primeiro estender-lhe a mão. José Miguel desde a sua estreia aos sete anos na Verbena dos Paulistas, nunca deixou de o acompanhar.

Fernando Farinha começou por ganhar 50$00 por noite, o que na época era apontado como um bom ordenado, e desta forma ajudava nas despesas da casa, como ele próprio o conta ao Álbum da Canção, de 01 de maio de 1963.

Depois do Café Mondego, Fernando atuou no Retiro da Severa, que pertencia ao Café Brasileira, e, mais tarde no Solar da Alegria, Café Latino etc..

Em 1941, o jornal Canção do Sul de 01 de junho apontava-lhe, em primeira página, a “intuição precoce” para o fado.

Com 13 anos estreou-se como atração nacional no Teatro Maria Vitória, na revista “Boa vai ela”, do empresário António Macedo, sendo seu secretário Giuseppe Bastos, que pagou ao pequeno Fernando, um “cachet” de 100$00 por noite. O público aplaudia com calor cada vez que subia ao palco para cantar os seus fados, os do disco que tinha gravado aos 11 anos.

Depois do teatro, Fernando Farinha voltou a atuar nas casas típicas, numa ronda constante, hoje uma, amanhã outra, não deixando por isso de ir até aos Paulistas, de onde guardava gratas recordações.

Pode dizer-se que Fernando Farinha não teve meninice nem mocidade, porque passou cedo a ter responsabilidade de chefe de família.

Quando começou a interessar-se pelo fado, os intérpretes que mais admirava eram Alfredo Marceneiro (1891-1982) e Filipe Pinto (1905-1968), cujas pegadas tentava seguir.

Em 1948, com 19 anos, preocupado com o seu futuro, e em melhorar a vida, conseguiu através de amigos verdadeiros arranjar um emprego na companhia de seguros Bonança, e a ideia era conciliar o novo emprego estável com a vida artística que embora ativa, estava ainda longe do êxito que veio a ter mais tarde. Todavia, era-lhe muito difícil manter os dois compromissos, e assim sendo, para não deixar os amigos ficarem mal, desistiu do emprego na seguradora e dedicou-se só ao fado.

Depois de alguns anos de luta constante veio a maioridade, aos 21 anos,  eo serviço militar obrigatório, não lhe tendosido dado excusa ao abrigo do regulamento, por amparo de mãe, mas este acabou por lhe ser dado, após o juramento de bandeira.

Voltou à vida artística, e foi durante um espetáculo de carnaval no Café Luso, que conheceu Lucinda Maria,  com quem casou em 1951; desta união não houve descendentes.

Também em 1951 assinou o seu primeiro contrato internacional, de muitos que mais tarde se seguiram. Foi contratado para atuar no Brasil, nas rádios Tupi e Record, em São Paulo, tendo alcançado enorme êxito. Para o seu sucesso no Brasil, onde esteve quatro meses, muito contribuiu o programa “Retiro da Severa”. Porém as saudades da pátria e da família eram muitas e regressou sem se despedir, não fosse alguém impedir a sua partida, como já tinha acontecido mais de uma vez.

Quando chegou a Lisboa, Fernando Farinha passou a fazer parte do elenco da Adega Mesquita, que pertencia ao Mesquita e à tia Adelina, pessoas muito estimadas por todos os artistas. Esta era uma das mais antigas casas de Fado do Bairro Alto, por onde passaram as melhores vozes e músicos de fado; foi tal o seu agrado, que se manteve no elenco até 1961.

Em 1955 foi distinguido com a Guitarra da Prata, pela Casa da Imprensa. Durante dez anos atuou na Adega Mesquita, onde ganhava 250$00 por noite, o que nessa época era visto como um ordenado de príncipe.

Os contratos começaram a aparecer e Fernando Farinha não podia estar “preso” a uma casa de fados diariamente, além de que a ex-Emissora Nacional não o dispensava da sua programação, o que contribuiu para ser conhecido em todo o país. Fernando Farinha não tinha mãos a medir e tornou-se num sucesso, o que as vendas de discos confirmavam, justificando o elevado número de gravações que efetuou. O seu público era absolutamente transversal, quer em termos etários, quer sociais. Foi, efetivamente, dos artistas com mais nome e mais estimado pelo público.

Em 1957 Fernando Farinha ganhara o título da “A voz mais portuguesa de Portugal”, através de uma votação organizada pela Rádio Peninsular, e nesse ano, com o aparecimento da televisão em Portugal, a sua popularidade aumentara, tendo protagonizado muitos programas de fado e era uma dos artistas mais regulares num programa de grande popularidade, “Melodias de sempre” apresentado por Jorge Alves (1914-1976).

Entreanto, em 1961, o último ano de atuações regulares de Fernando Farinha na Adega Mesquita, a revista Plateia organizou o concurso de Rei da Rádio, cujo vencedor foi o cançonetista António Calvário, tendo Fernando Farinha ficado em 2.º lugar. O espetáculo de “coroação” aconteceu no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

No dia 06 de maio de 1961 Fernando Farinha celebrou as Bodas de Prata no Coliseu dos Recreios, com casa cheia e um óptimo espetáculo, no qual participaram artistas de teatro, do fado, da rádio e da televisão, testemunho de apreço e da consideração que tinham pelo colega Fernando Farinha.

No ano anterior, recebeu no Palácio de Cristal, a Medalha de Ouro dos Artistas Nortenhos.

Em 1962 conquistou o título de Rei da Rádio, Fernando Farinha foi o primeiro e único fadista a conseguir esse feito, um título que lhe foi entregue num grandioso espectáculo no Éden Teatro, em Lisboa. Ainda no mesmo ano, num festival organizado pelo Casino Estoril, ganhou o “Disco de Ouro” e foi convidado como atração nacional, entre outras para a revista “Sal e pimenta”, levada à cena no Teatro ABC, do seu amigo, José Miguel.

No ano seguinte, Fernando Farinha recebeu o Óscar da Imprensa para o melhor fadista, troféu atribuído por votação dos mais destacados jornalistas, numa organização da Casa de Impressa. Data deste ano a sua estreia no cinema, relatando em filme a história da sua vida. O filme intitula-se “O miúdo da Bica”, e foi realizado por Constantino Esteves. Em 1964 protagoniza “A última pega”, também realizado por Constantino Esteves, e que contou no elenco com Leónia Mendes, Vicente da Câmara e Júlia Buisel, entre outros. Filmes portugueses que tiveram sucesso, em parte devido aos fados de sua autoria, que interpreta.

Gravou o primeiro disco aos 11 anos, na década de 1940, e nos anos 1960 já contava com 30 discos de 78 rotações por minuto (rpm), 40 de 45 rpm e seis de 33 rpm, num total de 76 discos gravados, não contando com as cassetes que gravou com o conjunto de guitarras de Jorge Fontes.

Em 1967 realizou uma digressão a Buenos Aires com o seu guitarrista privativo Manuel Mendes (1943-2009), tendo ambos sido os autores do Hino do Clube Português de Buenos Aires.

Nesta altura Fernando Farinha, tal como o seu colega Manuel Fernandes, tornou-se proprietário de uma tabacaria, em Campo de Ourique, na rua Almeida e Sousa, que mantetve até finais da década de 1970.  Em março de 1971 Fernando Farinha e Estela Alves fazem uma evocação do quadro “Fado”, de José Malhoa, na Adega Mesquita.

No dia 03 de julho de 1974 juntamente com Amália Rodrigues, Maria Dulce, Simone de Oliveira, entre outros, lideram uma marcha desde o Coliseu dos Recreios até à praça de Camões, sob o lema “A canção está na rua”.

Nesta década, após o 25 de abril de 1974, fez parte do núcleo fundador da Cantar Abril – Cooperativa do Espetáculo Popular, que incluiu,entre outros, Helena Isabel, e Paulo de Carvalho.

Em 1983, sem sinais de vontade em travar a carreira, embarca na sua primeira digressão aos Estados Unidos, Canadá e Venezuela, anteriormente já actuara no Brasil e Argentina, além das ex-colónias portuguesas de Angola e Moçambique, na República Sul-Africana e Suazilândia, e também em vários países europeus para as comunidades emigrantes.

Em 1986 celebrou no bairro da Bica o seu cinquentenário artístico.

Até agora temos referenciado o seu sucesso como intérprete, mas Fernando Farinho foi também um inspirado poeta, que foi cantado pelos maiores nomes do fado, cite-se Amália Rodrigues, Carlos Ramos, Maria Teresa de Noronha, Manuel de Almeida, Argentina Santos, Hermínia Silva, Fernanda Maria, Maria Amélia Proença, Carlos Macedo, e as cançonetistas Maria de Lourdes Resende e Mariete Pessanha, e muitos outros que admiravam a sua criatividade.

Fernando Farinha, como poeta, fez parceria com o violista Alberto Correia, que foi um “casamento perfeito”, e ainda hoje são cantados pela nova geração alguns dos temas que essa dupla assinou.

Uma outra das características de Fernando Farinha desconhecida do público em geral, é a de caricaturista. Com grande facilidade fazia caricaturas, principalmente dos colegas que com ele trabalharam.

A 12 de fevereiro de 1988 o fadista morreu em Lisboa, no hospital Egas Moniz, vítima de um enfisema pulmonar.

 Luís de Castro

Fotos: APAF/NACAL/FMS

 

JOSÉ COELHO (1914-1992) 

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José Coelho, criador de êxitos como “Eu gosto daquela feia”, “Pecados quem os não tem”, “Sexta-feira da Paixão”, “Alerta!”, “As minhas Penas” e “Passei ontem em Alcobaça”, nasceu há cem anos no bairro de Campo de Ourique, em Lisboa, precisamente no dia 23 de novembro de 1914.

O fadista participou em vários programas radiofónicos, nomeadamente da Rádio Graça, Peninsular e Clube de Lisboa e fez parte dos elencos de diversas casas de fado, entre elas, o Café Latino, Café Mondego, Os Marialvas do Fado, Casablanca, Retiro da Severa e Café Luso.

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Em julho de 1943 foi detido, em Lisboa, pela polícia política, e nesse mesmo ano transferido para a prisão de Caxias (nos arredores de Lisboa), de onde saiu em abril do ano seguinte (cf:Processo PIDE n.º 906/43). Em agosto de 1949 deixou Lisboa para se radicar em Benguela, no sul de Angola, onde organizou várias noites de fado e recebia colegas, entre eles, Amália Rodrigues, Fernando Farinha, Tristão da Silva, Frutuoso França, Maria Pereira e Quinita Gomes, entre outros, sempre que passavam por aquela cidade.

Por se ter afastado gravou apenas dois discos, um EP para a CBS com os fados “Gosto daquela feia”, “É tão triste não te ver”, “Lábios carminados” e “Quadras soltas”, e em 1986 participou num LP com outros nomes da sua geração - Frutuoso França, Júlio Vieitas, Manuel Calixto, Gabino Ferreira e Júlio Peres - intitulado “O Fado da Velha Guarda” (Riso&Ritmo).

O fadista retomou esparsamente a carreira, em meados da década de 1960, e com maior assiduidade a partir de 1976, tendo então dirigido artisticamente o Solar da Madragoa, com um cartaz, que entre outros nomes, contava com os de Ilda Silva, Julieta Reis e Miguel Silva. O fadista já atuara anteriormente neste espaço, actualmente com outra actividade, na rua das Trinas, em Lisboa.

José Coelho faleceu, aos 77 anos, em Lisboa, a 09 de Janeiro de 1992.

Pode escutar o fadista em: http://fadocravo.blogspot.pt/2007/10/blog-post.html e em http://www.youtube.com/watch?v=PhDUFoeWgcU.

Texto: N.C. Lopes com A. Catarina Mendes/Fotos: Arquivo Particular/FMS

 

 

MANUEL FERNANDES

o "rei do assobio", senhor de uma voz ímpar

 

  

 

Manuel Fernandes, tendo começado cantar aos 17 anos, é uma figura de referência das décadas de 1950 e 1960.

O fadista representou Portugal no Festival da Canção Latina, em 1955 que se realizou em Génova, na Itália, uma embaixada artística que incluiu ainda Maria de Lourdes Resende e Guilherme Koelner.

Deslocou-se ao Brasil com grande êxito, onde gravou o primeiro disco, em 1957, Integrou o elenco do popularíssimo programa radiofónico Os Companheiros da Alegria. Em 1962 celebrou o 25.º aniversário artístico com uma grande festa no Pavilhão dos Desportos, em Lisboa. Neste espectáculo cantou algumas das suas mais populares canções e fados, como “A Vassourinha”, “Sempre que Lisboa canta”, "Fado do Cauteleiro” ou “Lar Português”, este último Amália Rodrigues recriou na sua primeira gravação discográfica nos Estados Unidos.

Dono de uma voz com melodia inconfundível foi também conhecido pelo "Rei do Assobio", como podemos comprovar no seu grande êxito "Marcha Fadista"

Abandonou os palcos na década de 1980; tendo falecido em 1994.

Texto: Julieta Estrela de Castro/NCL

Foto: S/A Atuação nos EUA em 1953/Museu do Fado/FMS

 

 

 

MARIA SEVERA 

  

 

Severa é o primeiro ícone fadista. Viveu apenas 26 anos - de 1820 a 1846 -, mas Maria Severa Onofriana, de seu nome completo, fez alarde na Lisboa do seu tempo, mas se grande foo a fama entre a estúrdia de Lisboa, maior foi de morta.

O escritor Júlio Dantas foi um dos responsáveis desta aura de fama pelo seu romance e, posteriormente, pela peça “A Severa”, que mais tarde Leitão de Barros adaptou ao cinema, tendo sido o primeiro filme sonoro português. Protagonizado por Dina Tereza, o filme estreou em junho de 1931 no Teatro S. Luiz, onde esteve em cartaz durante seis meses e foi visto por 200.000 espetadores.

A personagem do romance, a partir da qual se construiu o mito da Severa não corresponde totalmente à vida real da fadista que foi, entre outros, amante do último Conde de Vimioso. A actriz Palmira Bastos que chegou a encarnar no palco a personagem da Severa afirmou que esta era “a dama das camélias portuguesa”.

 


 

Maria Severa distinguiu-se pelo feitio "briguento" que herdara da mãe, a temida Maria Barbuda, mas essencialmente pela sua voz e a forma de cantar, além da esbelta figura. Era "alta, delgada mas não magra, seio opulento, pele muito branca, olhos pretos, bastos cabelos negros, sobrancelhas carregadas, boca pequenina muito vermelha, belos dentes, cintura fina e o pé pequeno", assim a descreveu um contemporâneo. 

O pintor Francisco Metrass (1825-1861) ainda esboçou o seu retrato, sem nunca o ter efectuado.

Severa viveu em pleno advento do liberalismo quando se começou a sentir o final do Antigo Regime absolutista e terra-tenente. Os portugueses habituados ao poder absoluto do Rei conheciam agora um texto fundamental, a Constituição que distribuía poderes, garantia liberdades e direitos. Um período de reformas e revoltas populares, onde a mulher irá ver o seu papel social ampliado. O ministro Mouzinho da Silveira proclamava então que era necessário “fazer entrar a Nação no Grémio da Europa”. Queria-se um Portugal civilizado, moderno, europeu. A vida de Severa reflecte também estas contradições.

Nascida nas barracas dos Anjos, em Lisboa, no ano de 1820, como atesta a sua certidão de batismo, filha de Severo Manuel e Ana Gertrudes, mudou-se para a Madragoa, bairro de marujos e meliantes na época, onde a mãe tinha uma taberna na Rua Vicente Borga. Da Madragoa, sempre acompanhada pela mãe, mudou-se para o Bairro Alto e daqui para a Mouraria onde morreu, com uma ligeira passagem pelo palácio do Conde Vimioso, ao Campo Grande.

Afirmam os seus contemporâneos, que deixaram escritas memórias sobre a esbelta Severa, que além de cantar o fado, acompanhava-se a si própria, numa guitarra de cravelhas, e até escrevia os poemas que cantava.

Um companheiro seu, Manuel Botas, descreve a sua peculiar forma de cantar: “Às vezes guardava-se melancólica, nesses momentos cantava com tal sentimento que nos causava funda impressão. Ouvia-a numa ocasião, no Café do Bola, à Guia. Era um fado dolente, cantando a vida duras das que não têm lar nem alegria, sentia bem o que cantava porque tinha os olhos maranhados de lágrimas”.

O escritor Augusto Palmeirim quando a visitou na sua casa do Bairro Alto frisa que numa “mesa de jogo estava pousada uma guitarra, a companheira inseparável dos seus triunfos”.

O escritor Raimundo Bulhão Pato (1828-1912), que a conheceu, confidenciou certa noite a um amigo: “A pobre rapariga foi uma fadista interessantíssima, como nunca a Mouraria tornará a ter”.

NCL/Foto: RTP

 

 

 

  

MARIANA SILVA

Rainha do Fado Menor

 

 

 

 

Mariana Silva estreou-se como fadista muito precocemente, aos dez anos, no Salão Monumental, em Lisboa. As lides artísticas não eram estranhas para esta menina que desde os cinco anos fazia parte do cartaz do Circo Transmontano. Aos 14 anos foi apresentada como “a miúda do Alto Pina”, apesar de ter nascido na freguesia lisboeta de Santa Engrácia, num espetáculo no mercado da Ericeira.

O caminho da profissionalização estava encetado, sendo contratada pelo empresário José Miguel, que está atento ao alarde que a imprensa fadista faz da novel fadista, ainda sem carteira profissional, como exigiam as regras da época, mas beneficiará de uma autorização excepcional da Inspeção-Geral dos Espetáculos.

No início da década de 1950 a popularidade de Mariana Silva está em crescendo, em 1952 ganhou o título de Rainha do Fado Menor, num concurso no Teatro Apolo.

Marina Silva é seguramente um nome cimeiro da cena fadista, sobre quem o poeta Carlos Conde afirma que é uma “voz ao fado sabe dar, o que o fado deve ter”, e acrescentou: “Tudo nela se condensa; Impõe-se pela expressão E marca pela presença!”.

Mariana Silva grava discos, participa em vários espetáculos, e o seu nome é disputado pelas diferentes casa de fado. A fadista fez parte dos elencos do Retiro dos Marialvas, Adega Patrício, Adega Mesquita, Adega Machado, Lisboa à Noite, Forcado, Tipóia, Timpanas, Viela, Márcia Condessa e Parreirinha de Alfama, onde pôs fim à carreira em 1999.

O seu primeiro disco foi gravado aos 16 anos para a Estoril Discos, mas a fadista gravou noutras discográficas como a Alvorada, espólio recentemente visitado pelo investigador José Manuel Osório (1947-2011) que editou três CD, tendo escolhido de Mariana Silva o registo “Quem me dera ser velhinha”.

 Do repertório da fadista, que também atuou várias vezes além fronteiras, constam temas como, entre outros, “Erva da Rua”, “A Minha Sina”, “A Sina das Marianas”, “Santa Mãe” e “Amar Não é Pecado”, e " E assim nasceu o fado", que se pode escutar em http://fadocravo.blogspot.pt/2008/09/mariana-silva-e-assim-nasceu-o-fado.html

Texto: NCL

Foto: Coleção Particular/FMS

 

 

 

 

ARGENTINA SANTOS

O canto que é uma reza

 

 

 

Argentina Santos, distinguida com o Prémio Amália Rodrigues Carreira, em 2005, atuou em palcos como o do Festival de Edimburgo, o do Konzerthaus, em Viena, do Queen Elizabeth Hall, em Londres, do La Cité de Ia Musique, em Paris.

Desde 1950 é proprietária da casa de fados Parreirinha de Alfama, onde começou a trabalhar como cozinheira, aos 24 anos. Durante várias décadas manteve-se sempre à frente da cozinha, e em várias entrevistas deu conta do seu gosto pela gastronomia.

Em 1960 gravou o primeiro disco, de uma série, com diferentes etiquetas discográficas, da Estoril Discos à Marfer, Alvorada, Riso e Ritmo, Movieplay e CNM.

Argentina tem atuado desde sempre na sua casa de fados, mas cantou noutros espaços fadistas como o Café Luso.

Em 2004, ano em que foi homenageada durante a Festa do Fado em Lisboa, e em 2012 recebeu a Medalha de Ouro da Cidade de Lisboa.

Entre outras participações, destaca-se a atuação no espetáculo “Novas Severas”, da Associação Portuguesa Amigos do Fado, em 1994, no espetáculo “Cabelo Branco é Saudade”, de Ricardo Pais, em 2005, e no filme “Fados”, de Carlos Saura, em 2007.

 

Texto: NCL

Foto: José Frade/Museu do Fado

 

 

BERTA CARDOSO

A fadista com lágrimas na voz

 

 

Berta Cardoso estreou-se aos 16 anos no Salão Artístico, ao Parque Mayer, em Lisboa, em 1927, e interpretou um fado de Júlio de Sousa, muito voga, “Loucura”, uma criação de Mariamélia, irmã do poeta.

A belíssima voz que tinha levado a família a sonhá-la no palco lírico, arrebatou o público e a imprensa apelidou-a de “loucura dos fadistas”, poucos anos mais tarde.

Apesar dos “tempos difíceis” como recordará anos mais tarde ao Diário de Notícias, logo aos 19 anos viajou para Madrid para gravar o seu primeiro disco.

O jornal Guitarra de Portugal num título sintetiza a meteórica carreira, afirmando que Berta Cardoso chegou, cantou e venceu! O jornal escreve que Berta “se lançou mercê do seu próprio mérito”, “não imita ninguém” e revela “uma vocação espontânea e claramente desde a sua estreia”.

Berta Cardoso foi logo requisitada para os palcos do teatro de revista onde fez êxitos  como fadista mas deu também corpo a diversas personagens.

 

 

Na década de 1930 viajou até ao Brasil, sendo anunciada pela imprensa como “a fadista com lágrimas na voz”. Depois do assinalável êxito desta digressão, em 1933 viajou até Angola e Moçambique integrada num grupo constituído pelos guitarristas João da Mata e Armandinho, à viola Martinho d’Assunção, e a fadista Madalena de Melo.

 Do repertório de Berta Cardoso constam, entre outros fados, “Lés a lés” que Fernando Maurício recuperará anos mais tarde, “Belos Tempos”, “Fado da Azenha” ou “Aquela azenha velhinha”, “Perna de pau”, e aquele que é um dos seus fados identitários: “Cruz de Guerra”, que gravou na Estoril Discos. O poema dera a Armando Neves o 1.º prémio do Secretariado de Propaganda Nacional, a música é de Miguel Ramos.

Berta Cardoso depois das viagens bem sucedidas ao estrangeiro e às ex-colónias portuguesas, optou por ficar em Portugal, e recusou até um convite para atuar nos Estados Unidos. Só em 1947 aceitou um convite para cantar em Espanha, tendo-se saldado num enorme sucesso.

 “Fado de marinheiro” de João Nobre e Cordélio Oliveira que se popularizou como “Canção das descobertas”, “Homem da Berta", “Feitiço" também conhecido como "Fado Faia”, que Amália Rodrigues gravou, e “Noite de S. João” são alguns temas do repertório da fadista que é a imprensa apontou como a “alma do fado”, visto ser uma “expressiva e sentimental intérprete da canção nacional”.

“A chinela”, “Era assim”, também conhecido como “Fui uma noite às Pedralvas”, “Fracasso”, “Testamento”, “O homem da Berta”, “Cinta vermelha”, no original “Coisas vermelhas”, e “Tia Macheta” que o autor, o poeta João Linhares Barbosa, intitulou “Maus agoiros”, são outros fados inolvidáveis de Berta Cardoso que onde atuou tem sempre uma legião de fiéis admiradores que vão ouvi-la, apreciar-lhe os gestos, e a entrega em cada palavra.

Berta Cardoso encerrou a carreira em 1982 integrando o elenco de O Poeta, casa de fados que fo

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