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Rui Lage vencedor do Prémio Literário Revelaçã

Rui Lage venceu o Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís, por unanimidade, com o romance “O Invisível”, que propõe uma abordagem ficcional do lado mais oculto de Fernando Pessoa. Segundo o júri, “O Invisível” é “um romance com notável fulgor imaginativo” no qual “a figura histórica de Fernando Pessoa é tornada personagem de romance e colocada no centro de uma trama de ficção muito original, que cruza criativamente referentes conhecidos da época e Cultura Pessoanas, particularmente a sua vertente ocultista e/ou esotérica”, lê-se no comunicado da Estoril-Sol, que promove o galardão, em parceria com a Editorial Gradiva, que publicará este título, no próximo ano.

“Neste romance convergem vários géneros: desde logo o fantástico e o romance histórico, quer Portugal quer África do Sul são reconstituídos, na sua inserção ‘epocal’, com o máximo rigor que me foi possível; mas também o rocambolesco e o satírico, além de elementos do romance policial - a personagem de Pessoa deve aqui alguma coisa à tradição norte-americana dos ‘occult detectives’, com ascendentes em [Edgar Allen] Poe e Conan Doyle”, disse à agência Lusa o autor, cita a RTP.

“Interessava-me colocar Pessoa em situações incómodas, desconcertantes, fora do seu ambiente lisboeta (já tão explorado noutras ficções), para agudizar contrastes e convocar um mundo arcaico, telúrico, atormentado por influências e presenças invisíveis. Eis porque, com certa dose de perversidade, transportei Pessoa para uma aldeia fictícia, na serra do Alvão, pondo-o a interagir com uma comunidade ensimesmada, radicalmente extemporânea”, rematou.

"O Invisível" é o primeiro romance de Rui Lage e arrebatou o Prémio Agustina Bessa-Luís Revelação, no valor pecuniário de 10.000 euros, que será entregue no próximo ano, em data a anunciar pela organização.

Rui Carlos Morais Lage é licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde se doutorou em Literaturas e Culturas Românicas, na especialidade de Literatura Portuguesa.

O distinguido é autor de poesia, com sete livros publicados entre 2002 e 2016, entre os quais “Estrada Nacional”, que foi lhe valeu o Prémio Literário da Fundação Inês de Castro, no ano passado, tendo também publicado na área de ensaio, nomeadamente um título sobre Manuel António Pina. Na ficção infanto-juvenil, é autor da antologia “Poemas Portugueses: Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI”.

O escritor é deputado à Assembleia Municipal do Porto e membro do Conselho Municipal de Cultura portuense, professor de História Cultural do Teatro na Universidade Lusófona e assistente parlamentar no Parlamento Europeu, onde trabalha nas áreas dos Assuntos Externos e dos Direitos Humanos.

O júri do Prémio foi presidido por Guilherme d'Oliveira Martins, em representação do Centro Nacional de Cultura, e incluiu ainda José Manuel Mendes, pela Associação Portuguesa de Escritores, Maria Carlos Loureiro, pela Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e Bibliotecas, Manuel Frias Martins, pela Associação Portuguesa dos Críticos Literários, a catedrática de Literatura Maria Alzira Seixo e o escritor Liberto Cruz, convidados a título individual, e Nuno Lima de Carvalho e Dinis de Abreu, em representação da Estoril-Sol.

A partir desta edição, o Prémio Revelação deixou de fixar um limite de idade para os concorrentes. Manteve, contudo, a exigência de serem autores portugueses, ”sem qualquer obra publicada no género”.

O escritor Rui Lage afirmou que foi o interesse de Fernando Pessoa pelo espiritismo e a “visão astral” que o levou a escrever esta ficção.

Em declarações à agência Lusa, Rui Lage, de 42 anos, disse que a ideia do romance lhe surgiu quando leu “pela primeira vez certa carta enviada por Fernando Pessoa à sua Tia Anica, datada de 24 de julho de 1916”.

“Perguntei-me, então, se não haveria ali matéria para um romance: participação de Pessoa em sessões ‘semi espíritas’, ‘mediunidade legítima’, ‘visão astral’ e ‘visão etérica’, com um notório episódio ocorrido [no café] Brasileira do Rossio [em Lisboa], em que terá visto ‘as costelas de um indivíduo através do fato e da pele’, e escritos ‘automáticos’ ditados por entidades incorpóreas”, disse.

Rui Lage, para escrever este romance, foi motivado pelo interesse de Fernando Pessoa (1888-1935) pela “quarta dimensão”, que teve em comum com inúmeras personalidades das vanguardas do início do século XX, designadamente o escritor Guillaume Apollinaire, os artistas plásticos Marcel Duchamp e Pablo Picasso, e com diversos matemáticos e físicos teóricos, de Poincaré a Einstein, além de escritores como Oscar Wilde, Rudyard Kipling, F. Scott Fitzgerald e Joseph Conrad.

O conceito da “quarta dimensão” teve grande divulgação no início do século XX e foi “identificado como uma dimensão suplementar do espaço, inacessível à comum perceção humana, na qual se diluíam as categorias ordinárias com que pensamos a realidade, perdendo sentido as fronteiras entre o finito e o infinito, o visível e o invisível”, recorda Rui Lage.

Pessoa “assimilou elementos de várias dessas conceções, tendo especulado sobre uma ‘quarta dimensão da mente’, plano de radical liberdade criativa – e de promiscuidade entre ‘magia’ e criação literária –, em que vários podiam coexistir no mesmo, e que ele refere, aliás, num texto a propósito da criação heteronímica, como lugar onde teriam surgido [os seus heterónimos como] [Ricardo] Reis, [Álvaro de] Campos e [Alberto] Caeiro num ‘golpe de magia intelectual’”.

“Houve, contudo, uma passagem que me ‘deu’ o romance, que verdadeiramente me decidiu a escrevê-lo", disse Rui Lage à Lusa. "E fui encontrá-la na 'Declaração de Diferença’, texto assinado por Bernardo Soares [outro heterónimo de Pessoa], com a indicação para ser inserta no ‘Livro do Desassossego’”.

Rui Lage disse não nutrir “especial fascínio pelo ocultismo e pelo espiritismo”.

“O meu princípio orientador é a razão. Mas fascina-me o fascínio do nosso maior génio literário por tais matérias”, afirmou.

Depois, “a partir destes motivos fui desfiando uma trama que tem Fernando Pessoa como protagonista, inventando-lhe um percurso existencial alternativo que se cruza com personagens reais ou efabuladas, alterando vários aspetos da sua biografia mas mantendo o maior número possível de informações verídicas, atestadas pelos seus biógrafos”.

“Por outro lado, não resisti a preencher com elementos ficcionais um dos mais estranhos vazios autobiográficos da cultura portuguesa: os nove anos passados por Pessoa na África do Sul, dos quais ele não deixou praticamente rasto na sua obra literária, apesar de parecer impossível que a paisagem humana e natural de Durban não tivesse de alguma maneira marcado uma personalidade em formação como era a dele nessa época. Essa lacuna permitiu-me fabricar uma génese para as inclinações mediúnicas e ocultistas de Pessoa”.

O autor disse à Lusa que “O Invisível” teve três versões antes de o candidatar ao galardão, e levou cinco anos a escrevê-lo, incluindo “longos períodos de pousio”.

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