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O compositor Fernando Lopes-Graça “foi uma referência do século XX português”, defendeu o compositor Sérgio Azevedo, seu aluno, que, dia 13 de julho às 21:30, comenta um recital do pianista António Rosado, em Cascais.
O recital de António Rosado, no Centro Cultural de Cascais-Casas do Gandarinha, faz parte da programação celebrativa dos 111 anos do nascimento de Lopes-Graça, levada a cabo pelo concelho de Cascais, iniciada no passado dia 07, com uma conferência por Manuel Deniz Silva e Pedro Rodrigues.
Do programa que vai ser apresentado por António Rosado e comentado por Sérgio Azevedo, fazem parte obras de Claude Debussy e a Suite n.º 5, “In memoriam Béla Bartók", de Lopes-Graça.
“Qualquer pessoa concordará que Lopes-Graça, mais do que um mero compositor - e já seria muito ser um dos principais compositores portugueses - (...) foi uma referência do século XX português em todos os campos, como tradutor, até como escritor. Se não tivesse sido compositor teria sido um ótimo escritor”, disse à agência Lusa Sérgio Azevedo.
“Ele tinha um domínio do português fantástico, contactou com todos os poetas vivos da sua altura, com os escritores, os artistas plásticos - Helena Vieira da Silva, por exemplo -, e percorreu quase todo o século XX”, acrescentou.
“Além da sua atividade política, Lopes-Graça tocou em praticamente em todos os aspetos da cultura portuguesa”, afirmou Sérgio Azevedo, um dos últimos alunos do compositor.
“Dentro da música – prosseguiu – tocou quer no povo mais simples, com aquelas saídas que fazia para o Alentejo, junto das comunidades operárias, com o Coro da Academia [dos Amadores de Música]... E tanto contactava com as pessoas mais simples, operários e camponeses, como tinha peças [suas] tocadas nos sítios mais prestigiosos, quando o deixavam”, disse Azevedo, referindo o facto de, antes do 25 de Abril de 1974, a Censura proibir muitas vezes a audição de composições de Lopes-Graça, que a ditadura proibira de lecionar no Ensino público.
“Ele tocou todos os vértices da sociedade portuguesa, das pessoas mais cultas às pessoas mais simples, escreveu também música para crianças”, disse para rematar: “Ele teve uma preocupação social que ainda hoje em dia é rara; e, neste aspeto, foi uma figura fundamental na Cultura portuguesa, antes de mais nada”.
Fernando Lopes-Graça (1906-1994) nasceu em Tomar onde se iniciou como músico, acompanhando ao piano várias películas no Cine Paraíso. Segundo O Museu da Música Portuguesa (MMP) “deixou uma obra musical extensíssima a par de uma importante obra literária que nos dá testemunho da sua grande formação humanista e da sua intensa atividade cultural e política”.
Lopes-Graça estudou no Conservatório de Música de Lisboa, com Vianna da Motta, Tomás Borba e Luís de Freitas Branco, tendo concluído o Curso de Composição, em 1941. Por motivos políticos foi impedido de lecionar em instituições públicas e, mais tarde, no ensino privado. Também não pôde usufruir de uma bolsa que ganhou para estudar no estrangeiro.
Após a sua prisão por motivos políticos em Caxias, em 1936, Lopes-Graça viveu em Paris de 1937 a 1939, onde estudou composição, com Charles Koechlin, e musicologia, na Sorbonne, com Paul-Marie Masson.
Datam desta altura as suas primeiras harmonizações de canções populares portuguesas e a composição “La fièvre du temps”, uma encomenda da Maison de La Culture.
Em 1942, fundou a Sociedade de Concertos Sonata, que dirigiu até 1961, dedicada à divulgação de música contemporânea.
O compositor, falecido na vila da Parede, no concelho de Cascais, em 1994, deixou em testamento todo o seu espólio à Câmara Municipal de Cascais, para ser incorporado no Museu da Música Portuguesa.
Sobre António Rosado, a revista francesa Diapason afirmou que é um "intérprete que domina o que faz". "Tem tanto de emoção e de poesia, como de cor e de bom gosto".
O pianista estreou em Portugal, entre outras peças, as Sonatas de Enescu e Paráfrases de Liszt, tendo sido o primeiro pianista português a realizar as integrais dos Prelúdios e também dos Estudos de Claude Debussy.
Rosado fez igualmente a integral das sonatas de Mozart.
A sua estreia em palco aconteceu aos quatro anos. Iniciou os estudos musicais com seu pai, e prosseguiu-os no Conservatório Nacional de Música de Lisboa, onde terminou o Curso Superior de Piano, com 20 valores.
Em 1980, estreou-se em concerto com a Orchestre National de Toulouse, sob a direção de Michel Plasson.
As diferentes iniciativas celebrativas dos 111 anos do nascimento de Lopes-Graça contam com a participação, entre outros, do compositor Sérgio Azevedo, que foi amigo de Lopes-Graça, dos pianistas António Rosado e Nuno Vieira de Almeida, do musicólogo Mário Vieira de Carvalho e do Moscow Piano Quartet.
Em declarações à agência Lusa, Sérgio Azevedo, que foi um dos últimos alunos de Lopes-Graça e se assume como seu discípulo, lamentou que “as grandes obras corais e sinfónicas do compositor estejam ausentes da programação das principais salas de concerto” e referiu que, apesar de “ser um dos compositores mais recuperados em termos teóricos, não existe ainda uma biografia completa sua”.
No decorrer desta programação comemorativa, entre outras iniciativas, irá ser apresentada, no dia 18 de setembro, na Casa Verdades Faria-MMP, uma fotobiografia de Fernando Lopes-Graça (1906-1994), da autoria de Mário Vieira de Carvalho, Manuel Deniz Silva e António de Sousa.
No mesmo dia será inaugurada, naquele museu, uma exposição fotográfica alusiva ao compositor, natural de Tomar, autor, entre outras peças, das "Canções Heroicas", com poemas de autores como José Gomes Ferreira, João Cochofel, Carlos de Oliveira e Armindo Rodrigues.
A programação inclui, no Centro Cultural de Cascais, um concerto pelo Coro Lopes-Graça da Academia de Amadores de Música, sob a direção do maestro José Robert, com o pianista Fausto Neves, no dia 26 de outubro, uma conferência-recital de apresentação do projeto discográfico “Fernando Lopes-Graça: Songs and Folksongs”, com o pianista Nuno Vieira de Almeida, a soprano Susana Gaspar, a meio-soprano Cátia Moreso e o tenor Fernando Guimarães, no dia 26 de outubro, e o simpósio “Fernando Lopes-Graça em retrospetiva”, nos dias 15 e 16 de dezembro.
As celebrações encerram no dia 17 de dezembro, com um concerto pelo Moscow Piano Quartet, em que será estreada uma peça de Sérgio de Azevedo e a obra distinguida com o Prémio Internacional de Composição Fernando Lopes-Graça/2017, que será entregue ao vencedor.
Segundo Sérgio Azevedo, esta é uma iniciativa que as entidades responsáveis, Fundação D. Luís I e Câmara de Cascais, “pretendem continuar”.

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