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A obra "Judeus ilustres de Portugal", de Miriam Assor, reúne 14 biografias de personalidades de "intrepidez excecional", que dignificaram "o país na foz do mundo". Para Miriam Assor, é "essencial que a memória não seja sepultada - quando se escreve fala-se das pessoas, passa-se testemunho, é como mar que não se fecha".

"Sinto que a memória deve ser preservada, e não só com o velho ‘slogan’ 'Holocasuto nunca mais'; isto a mim não me diz nada, é preciso esgrimir [para que não se repita], é preciso não esquecer o que houve para trás e construir o que aí vem", declarou à Lusa.

A galeria das 14 personalidades integra nomes como Garcia de Orta, Amado Lusitano e os "corajosos irmãos gémeos" Joel e Samuel Sequerra, que salvaram "cerca de mil foragidos da malvadez nazi".

O "esplendoroso conhecimento" destes 14 nomes "honrou e dignificou" o país, mas "há muitas mais personalidades judias de idêntico destaque", disse a autora, que não descarta a possibilidade de uma nova obra com outras figuras.

Entre os escolhidos estão Isaac Aboab da Fonseca, o rabino e poeta de Amesterdão, Moses Bensabat Amzalak, senhor de "um currículo impressionante", que foi presidente da Academia de Ciências de Lisboa, e que ajudou no acolhimento aos refugiados em Portugal durante a II Guerra Mundial, Isaac Cardoso, médico de Filipe IV de Espanha, e Grácia Naci, uma mulher do século XVI "que esteve à frente do seu tempo", e da qual se conta só "uma pequena história".

A obra, prefaciada por Miguel Esteves Cardoso, inclui ainda o matemático Pedro Nunes, o compositor e editor Alain Oulman, a bióloga Matilde Bensaúde e seu pai, Alfredo Bensaúde, que foi o primeiro diretor do Instituto Superior Técnico, em Lisboa, e um homem muito ligado à I República.

"A ideia do livro partiu da editora, que inicialmente me desafiou a escrever uma obra de ficção”, disse Assor. Mas como não sabe se algum dia terá “coragem para o fazer”, optou pelo ensaio.

Para a autora, "foi gratificante" ter escrito esta obra, "porque se aprende, porque se tem de ler, investigar e falar com quem sabe, para depois arquitetar e construir os textos com o saber que se tem de novo".

"Tudo o que aqui está escrito, está documentado", salientou Assor, que contou com a sua experiência, já que conheceu e conviveu com alguns dos biografados, e também com testemunhos de pessoas que os conheceram.

"O filho do Alain Oulman, o Nicholas, é vivo. Falei com o cunhado dos Sequerra, que eu aliás conheci. O filho do Sam Levy está vivo e foi também alguém que conheci. Relativamente a Alfredo Bensaúde e à sua filha Matilde Bensaúde, há muita gente viva dessa época", disse.

Entre os 14 está também o pai da autora, o rabino Abraham Assor, que, de 1941 a 1993, dirigiu a Comunidade Israelita de Lisboa (CIL), uma ação que "teve reflexos fora dela, tendo estabelecido as primeiras boas relações entre um rabino e um cardeal, designadamente o patriarca de Lisboa, António Ribeiro, de quem era amigo antes de assumirem funções de liderança religiosa, mas também com a comunidade islâmica", disse.

"A forma como a CIL se moldou deve-se muito a ele, e o rabino está no livro, não porque é o meu pai, mas porque é o 'rabino Assor'. Nem me cabia bem propor o seu nome", sublinhou.

Para autora, escrever sobre o pai, de quem já compilara alguns discursos em "Luz: textos e documentos" (2001), foi "muito complicado".

Samuel e Joel Sequerra, que a autora ainda conheceu, "não contavam a sua história de salvamento dos judeus em Espanha, pois tinham um certo pudor, a sua história era muito contada no Brasil".

Sam Levy, outra personalidade com a qual conviveu, "terá sido o primeiro sefardita [judeu de origem ibérica] a readquirir a cidadania dos seus antepassados, quando chegou a Lisboa na década de 1940".

"Em Sam Levy, o que me fascinou foi a coragem, o humor e a forma extraordinária como tornava a cultura simples, não só a judaica - mesclava a cultura no quotidiano, era uma pessoa dentro dos círculos intelectuais, era um residente, tinha um doutoramento na mestria da vida", disse.

"Alain Oulman não cumpria os preceitos, não ia ao templo, mas era um judeu, filho de mãe judia, tal como o antigo Presidente da República Jorge Sampaio e, segundo a nossa tradição, filho de mãe judia é judeu", esclareceu Miriam Assor, para quem, além de compositor que "revolucionou o fado", através da voz de Amália Rodrigues, Oulman foi um importante editor livreiro.

A autora na introdução à obra salienta que apesar da “vil perseguição” aos judeus, após o édito de 1496 de D. Manuel I, mas sublinha que “o fogo [da Inquisição] nunca derreteu a linfa do Judaísmo” em Portugal, e muitos “conservaram ocultamente a identidade religiosa”.

A extinção formal da Inquisição em Portugal, em 1821, permitiu o regresso de muitos judeus, nomeadamente oriundos de Marrocos e Gibraltar.

A autora levou cerca de um ano a investigar e escrever esta obra. "Durante esse tempo vivi intensamente com estas pessoas até que entreguei a obra às editora e deixaram de estar aqui, comigo, e alguma coisa de nós já foi também", rematou.

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