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Carmen Dolores argumenta, no seu livro de memórias e reflexões, “Vozes Dentro de Mim”, que não é saudosista, mas não se devem esquecer “os bons momentos” e “as pessoas que já não estão connosco".
Ao abrir do livro, Carmen Dolores escreve: "Estou sempre à escuta/ das vozes da natureza/ das vozes do homens/ das vozes dentro de mim”.
“A voz, ex-libris da identidade que a definiu, tornou-a referência na comunicação em língua portuguesa, ao serviço da grande literatura (sobretudo poesia), que tem divulgado encantatoriamente”, afirma Fernando Dacosta num texto publicado na contracapa do livro.
“No teatro, no cinema, na televisão, em recitais, em livros, em conferências, Carmen Dolores transformou a carreira pessoal numa obra de abertura aos outros, de acrescentamento dos outros, ajudando a despertar para a cultura várias gerações de nós, gerações que lhe são para sempre devedoras”, prossegue o escritor que realça a “lucidez” da atriz nas companhias Comediantes de Lisboa e Teatro Moderno de Lisboa, do qual foi uma das fundadoras.
A ideia deste livro, conta Carmen Dolores, “surgiu inesperadamente” num recital do pianista Grigory Sokolov, em Lisboa. O recital fê-la reviver os tempos da infância, na casa dos pais, em lisboa, na rua Visconde de Valmor, onde se ouvia música numa “grafonola, companheira de muitos serões”.
A atriz adverte que quem ler o que escreve pode pensar que vive “obcecada pelas memórias do passado”. “Não é verdade”, garante Carmen Dolores, de 93 anos, e acrescenta: “Vivo muito o presente, à minha maneira”. Todavia, a atriz, que protagonizou “Espingardas da Mãe Carrar” e “Danças da Morte”, segundo versões de Jorge Listopad, argumenta que não se deve "esquecer os bons momentos já vividos e as pessoas que já não estão connosco e nos ajudaram a ser o que hoje somos”.
Eu, que pretendo não ser uma saudosista, reparo que a palavra saudade parece envolver como uma sombra quase tudo que escrevo”, afirma.
Todavia, garante: “Não é saudade o que sinto. É voltar a viver esses momentos, agora com uma quase felicidade que não soube aproveitar na altura própria”.
“Por distração, por falta de tempo, por não ter experiência de vida suficiente?”, questiona para sublinhar em seguida que “as interrogações nunca deixarão de existir” e que são “sinal de vida e de esperança”.
A obra, publicada pela Sextante, divide-se em quatro partes – “Porquê outro livro de memórias?”, “Elas, as personagens”, “A palavra dita, a palavra escrita” e “Agora vou divagar, apenas por divagar”.
O livro inclui fotografias de cena e de pose de Carmen Dolores, mas também de outros atores como Diogo Infante, com quem contracenou, entre outras peças, em “Espectros”, de Ibsen, José Gomes, Joaquim Rosa, Ruy de Carvalho, Alexandra Lencastre.
Às memórias de vida, Carmen Dolores, nesta obra, acrescenta reflexões suas e apontamentos sobre colegas de palco.
Numa reflexão sobre a obra, agora levada à estampa, Carmen Dolores afirma que “valeu a pena publicar”, tal como sentiu quando publicou o segundo livro de memórias, “No palco da memória” (2014), que sucedeu a “Retrato Inacabado” (1984).
Carmen Dolores estreou-se na rádio, aos 14 anos, em programas de divulgação de poesia. Estreou-se no cinema como protagonista d' “Amor de perdição” (1943) e debutou no teatro, em 1945, na Companhia dos Comediantes de Lisboa, fundada por António Lopes Ribeiro, em 1944, no Teatro da Trindade.
Em 2005, foi condecorada pelo então Presidente da República, Jorge Sampaio, com o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. Nesse mesmo ano despediu-se dos palcos, protagonizando a peça "Copenhaga", de Michael Frayn, no Teatro Aberto, onde a tinha estreado em 2003, com Luís Alberto e Paulo Pires, numa encenação de João Lourenço.
Entre vários prémios, Carmen Dolores recebeu, em 2016, o Prémio Sophia de Carreira, da Academia Portuguesa de Cinema, e o Prémio António Quadros de Teatro, da Fundação António Quadros.
Com o crítico de teatro Tito Lívio, assina a obra “Teatro Moderno de Lisboa – 1961-1965 – Um marco na história do teatro português” (2009). 

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