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“É a guerra”, um registo diário de Aquilino Ribeiro, durante os dois primeiros meses da I Grande Guerra (1914-1918), a partir de Paris, foi reeditado pela Bertrand, com prefácio de Mário Cláudio.
A obra, que foi editada pela primeira vez em 1934, é “um retrato pessoal e íntimo de Aquilino Ribeiro sobre um dos mais importantes acontecimentos da História mundial recente”, afirma a editora em comunicado.
No prefácio, o escritor Mário Cláudio chama à atenção para o facto de que “o diarista não se coíbe de apontar a emergência de uma segunda e não menos catastrófica conflagração”, como veio a acontecer em 1939.
“O que sobreleva do discurso [de Aquilino] será o veto pessoal a tudo quanto, redundando na perversidade dos descendentes de Caim e Abel, promove ‘muita miséria, morticínios, violências e as infalíveis depredações’. Não escondendo uma certa inclinação política para uma Alemanha que sairia do tratado de Versalhes como um desses ‘vencidos a que deixaram os olhos para poder chorar’, Aquilino não regateia a simpatia intelectual por uma França que continua a taxar de ‘nação adorável, ainda mais vista de longe que intramuros, cheia de encantos físicos, harmonizadora da vida, reguladora da arte’".
A I Grande Guerra teve início a 28 de julho e opôs os Impérios Austro-Húngaro, Alemão e Otomano e sua aliada Bulgária à Tríplice Aliança formada pela Inglaterra, França e Rússia, aos quais se aliaram a Sérvia, Estados Unidos, Japão, Brasil e Portugal, entre outros Estados.
Referindo-se à prosa de Aquilino, Mário Cláudio afirma que o escritor dá conta da “’multidão fúnebre, ensimesmada no couce de féretros invisíveis’, que passeia ‘com tédio e melancolia, falando a uma voz, como se cada qual voltasse do cemitério de acompanhar o seu morto’, num ‘silêncio transido de Horto de Getsemani’”.
Uma perspetiva inversa, faz notar Mário Cláudio, da de outro escritor português, Mário Sá-Carneiro, também a residir em Paris, e que fez um relato eufórico e “algo histérico” da capital francesa, no mesmo período, ou da do francês Marcel Proust que “afina pelo diapasão pós-romântico”.
De tudo isto, Mário Cláudio declara que, na narrativa de Aquilino, sobressaem os “'meandros escuros da capital’, conta-nos ele, [que] ‘a miséria emerge e escorre ao sol, alegra certas ruas, em direção ao posto de caridade pública ou particular, densa e sórdida, dando a impressão do rastejar das lagartas processionais’”.
“Se quisermos sintetizar o tom das preocupações do narrador de 'É a Guerra’ diante do cataclismo quase automático, cujas causas a ciência histórica não logrou destrinçar, teremos de transcrever este esclarecedor fragmento: ‘Ao público menos grado, desde a porteira ao manga-de-alpaca, ainda lhe não foi explicado porque estalou a guerra. Afirmam-lhe que a França foi agredida em plena paz, que é a invasão dos bárbaros o que se está dando, que os boches matam velhos e mulheres, cortaram as mãos e não sei quantas criancinhas, fuzilaram um garotito que apontou para eles a espingardinha de pau, arrasam as igrejas, esfolam padre e bedel, mais nada. Elucidação honrada, franca, não lhe proporcionam, talvez porque não saibam’”.
E interroga-se Mário Cláudio: “Não ocorrerá exactamente assim em todas as magnas lutas em que a humanidade metodicamente se auto-destrói, as havidas, as em curso, e as a haver?”.

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