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Miguel Ángel Vera

 

Miguel Ángel Vera, catedrático da Universidade de Santiago do Chile defende que o fado está nas origens de géneros musicais sul-americanos como o tango, bolero e outras canções portuárias.

O que se deu foi “uma miscigenação entre o fado e os géneros musicais locais”, que aconteceu entre finais do século XIX e princípios do século XX, através do tráfego marítimo mercantil, devido ao papel de marinheiros portugueses, que viajavam muitas vezes com uma guitarra portuguesa, explicou o investigador nuam entrecvista à Lusa.
“O fado e as nossas músicas sul-americanas são família, daí eu falar antes em encontros da família”, rematou.
Miguel Ángel Vera esteve Lisboa, como a FMS divuklgou neste site, para participar em várias iniciativas, entre as quais a apresentação de um disco de inéditos de Amália Rodrigues interpretando canções sul-americanas, resultado da sua própria investigação.
O investigador resgatou de diversos arquivos sul-americanos, nomeadamente das emissoras de rádio mexicanas. A investigação sobre o "género musical portuário" começou a partir de conversas entre Ángel Vera e Amália Rodrigues, pelo facto de a fadista apresentar, no seus espetáculos, a "ranchera" “Fallaste Corazón”, de Cuco Sánchez, como “um fado mexicano”.
“Eu interroguei-a sobre qual a razão, e ela disse-me: ‘é em espanhol mas é um fado’, e daí parti para a pesquisa científica e encontrei muita coisa interessante, que levou à teoria do ‘género musical portuário’”, contou.
No âmbito desta investigação, nos arquivos da UNESCO, na Argentina, Ángel Vera encontrou o registo dos passageiros e tripulantes dos navios mercantes qu,e entre 1880 e 1930, tocaram portos sul-americanos, vindos da Europa.
“Cerca de 28% das tripulações eram portuguesas. Este dado foi o principal para iniciar a teoria. Pois antes de existir o canal do Panamá os barcos faziam uma longa travessia, sendo os principais portos Veracruz, no México, Santiago, em Cuba, Buenos Aires, na Argentina, Valparaíso, no Chile, Callao, no Peru, e Guayquil, no Equador”.
“É nestes portos que se encontra o género musical portuário, onde existem as músicas que são similares ao fado e que darão origem a outros géneros como o tango, a cantiga ‘cebola’ - como dizemos em Valparíso, porque faz chorar -, a cantiga criolla, no Peru, o bolero catinero, do Equador, a ranchera, do México, e, depois de um certo desenvolvimento, o bolero cubano”.
Estas canções urbanas, referiu o investigador, têm um compasso binário, tal como o fado, enquanto as canções do campo têm um compasso trinário, “e é curioso que as pessoas do campo, quando vêm para a cidade passam a cantar as cantigas do género portuário e, até nas de embalar, adotam o compasso binário”.

 


Para o investigador, a influência do fado em algumas canções sul-americanas “é parte de um diálogo que começou com os marinheiros portugueses, e que continuou com o aparecimento do disco, e Amália Rodrigues, sem o saber, deu o seu contributo, e hoje há uma fusão muito interessante, em que os novos [músicos] estão à procura das guitarras portuguesas para tocar bolero e tango”.
“Há, atualmente, um grande movimento [entre os jovens músicos], em parte fruto da divulgação da tese sobre o género portuário”, rematou.
A tese tem gerado “grande interesse por parte dos etnomusicólogos”, mas “o grande público sul-americano sente que o fado e a sua música são familiares, mas há uma resistência, devido a certos nacionalismos - é difícil os argentinos queiram reconhecer o fado como pai do tango”.

Foto: D.R./FMS

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